• Rogerio Gonzales

A máquina de moer talentos

Atualizado: Jan 10

Temos uma capacidade nata de aprender, porém nossa motivação tende a diminuir com o tempo.

Enquanto crianças, nossa curiosidade natural é o motor para uma aprendizagem sadia, mas o sistema educacional comum às escolas e universidades abafa esse ímpeto para questionar e nos conforma em um modelo repetitivo e repetidor.



Logo entramos no mundo profissional e nosso instinto de sobrevivência faz com que nosso foco se mantenha nos resultados de curto prazo, e quando nos aventuramos nos cursos de especialização, MBA´s e capacitações, as experiências em sala de aula acabam por reforçar o senso de inaplicabilidade do conhecimento “acadêmico”, distanciando o estudar e o aprender.


Concorda-se que é importante aprender, mas acabamos percebendo os modelos formais de educação incapazes de dar conta das necessidades diárias em nossas atividades profissionais.


Não obstante, ao relacionar a aprendizagem somente com processos formais de ensino, deixamos de lado uma das mais potentes formas de aprender que é a orgânica, ou espontânea.


Podemos aprender de forma orgânica com os colegas, com o chefe, com seu cliente, fornecedor, ou especialmente com um mentor, a aprendizagem espontânea normalmente contribui para o desenvolvimento ou modificação de hábitos e comportamentos.


A aprendizagem é um dos assuntos do momento e pode ser chamada de diferentes formas, tais como “aprender a aprender”, “aprendizado ao longo da vida” ou ainda “learning agility”. Independente da nomenclatura, é certo que vivemos em uma época de grande fluxo de ideias e apenas informação não dá conta dos desafios que enfrentamos!


Refletir de forma estruturada sobre nossas experiências se faz cada vez mais necessário para conseguirmos de fato aprender pela prática.


Nessa prática, porém, muitas vezes vemos os melhores trabalhos sendo terceirizados e novos colaboradores “recém-saídos das fraldas” ocupando posições que há muito são desejadas na organização.


Então é frente a esse cenário que abraçamos o novo, nos inscrevemos em cursos de escolas disruptivas e compramos programas online com propostas sedutoras e artes hipnóticas.


Nós nos jogamos no meio do salão mesmo sem saber qual a música que irá tocar e decidimos que não vamos ficar para trás. Se a diferença entre a novidade e a defasagem é um curso com nome descolado... Também o terei!


Infelizmente os rompantes de atitude desnorteadas parecem não bastar, as soluções miraculosas ficam para trás e somos sufocados pelo dia a dia do trabalho burocrático e vazio. E assim, relatórios se multiplicam e reuniões demoram turnos inteiros sem avanços significativos.


O fato é que nosso foco em entregas de curto prazo sabota nossa habilidade de aprender com nossas próprias atividades no trabalho.


A exigência de obter a alta performance contínua e manter o olhar nos resultados ao invés de conjuntamente desenvolver nossas habilidades é um ciclo vicioso que nos impomos, a nós e a nossas equipes, e ao qual nos submetemos na expectativa de garantir nosso emprego.

O incrível é que essa falta de foco no médio prazo é um dificultador para manter nosso objetivo principal de curto prazo, que é manter nosso emprego e nossa organização viva.


Em seu TEDx, Eduardo Briceño fala sobre “como ficar melhor nas atividades que temos apreço”*, e, de forma muito didática, ele pontua possibilidades de desenvolvimento de habilidades sem ter que abrir mão da performance. Para Briceño é justamente a separação desses momentos que pode auxiliar o aprendiz a desenvolver ou melhorar uma habilidade.

Em realidade, a construção de uma cultura de aprendizagem pode atrapalhar o atingimento de resultados de curto prazo**, uma vez que a abertura para novas ideias, a existência de um espaço seguro sob o ponto de vista psicológico e a garantia de tempo de reflexão estruturada são aspectos chave para que o indivíduo possa transformar uma experiência em um aprendizado.


A cultura de aprendizagem é algo que deve ser cultivado, e não basta fazer um curso de 16h de uma nova metodologia. O desafio é diário e independente do método usado, pois só a consistência e a disciplina em manter a chama da aprendizagem acesa fará a diferença a médio prazo, tanto nas organizações quanto nos indivíduos.


A responsabilidade pelo aprendizado é do indivíduo, e quanto antes este assumir seu protagonismo nesse processo, mais rápido poderemos ir para os próximos passos dessa longa jornada.

A falta de tempo, porém, é um dos obstáculos significativos, e aí entraria a responsabilidade dos líderes ou do RH em criar condições/ambiente, debater a importância do tema e dar o suporte para que essa aspiração possa se transformar em prática, quiçá reforçada por

símbolos, sistemas e indicadores de gestão.


Processo de transformação/mudança precisam ser muito bem orquestrados, co-criados e contratados para diminuir ruídos dentro de uma equipe/organização.


Os críticos, entretanto, dirão que a responsabilidade do desenvolvimento do indivíduo é da organização e que este é mais um discurso neoliberal de terceirização de uma responsabilidade do empregador. E eles não deixam de estar certos, também é verdade.


Mas o que fazemos nesse cenário?

Seja lutando contra o liberalismo, rendendo-se a ele, ou ainda criando sua própria narrativa, você precisará aprender! Mesmo que falte tempo no dia a dia, é seu papel gerenciar o próprio aprendizado.


Caberia também à empresa com um mínimo de visão estratégica ou ambições a médio prazo auxiliar nesse processo, porém nem todas organizações compartilham desse ponto de vista. Talvez você, leitor, reconheça uma que outra organização nessa posição contraditória, não é mesmo?


E se processos de aprendizagem pudessem começar com o foco em criar espaço para que as pessoas possam aprender? Espaço físico, espaço-tempo, espaço-mental, espaço-psicológico, espaço-empático.


De que ajuda você precisa para dar o primeiro passo?


Rogério Gonzales

Team Coach La Rede - Laboratório de Redefinição

Doutorando em Administração de Empresas - UFRGS

@la.rede #gestaodepessoas #culturalchange


*How to get better at the things you care about”

** Processo de transformação/mudança precisam ser muito bem orquestrados, co-criados e contratados para diminuir ruídos dentro de uma equipe/organização.

 

Porto Alegre - RS, Brasil

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