• Rogerio Gonzales

Compreendendo o mundo em disrupção

Atualizado: Jan 7


O fim da era das organizações que buscam apenas a maximização dos lucros

A era da maximização dos lucros acabou! Forbes, Financial Times e duzentos dos presidentes das maiores corporações dos Estados Unidos colocaram o capitalismo em “recall”.


O que levou um grupo de duzentos CEO´s das maiores corporações norte americanas a enterrar a crença de que as organizações capitalistas devem trabalhar com foco exclusivo no resultado financeiro? Por que eles passaram da pura maximização de lucros como finalidade para o cumprimento de um papel social através de propósito da organização?


É tempo de ganhar dinheiro com propósito, e para isso devemos reconstruir o papel das organizações em suas comunidades, assim como a forma como trabalhamos e nosso impacto na sociedade e no meio ambiente. Tais declarações configuram um rompimento histórico na forma como as corporações, pressionadas por resultados de curto prazo e muito influenciadas pelo pensamento neoliberal.


O modelo neoliberal tem como um de seus maiores expoentes o economista estadunidense Milton Friedman, que foi um dos líderes da escola econômica de Chicago e venceu o prêmio Nobel da área em 1976. Na época, Friedman publicou no The New York Times um artigo que ficaria para a história: “The Social Responsibility of Business is to Increase its Profits[1]”

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O célebre texto da década de 70 defende, justamente, que o papel das organizações é a maximização dos lucros. Para ele os acionistas, consumidores e empregados poderiam separadamente gastar seu próprio dinheiro na ‘ação social’ se assim o desejassem, porém esse não é um papel da empresa. Friedman escreveu:


"Os empresários acreditam que eles estão defendendo a livre iniciativa quando eles declamam que as empresas não estão preocupadas “apenas” com o lucro, mas também em promover fins “sociais” desejáveis; de que as empresas têm uma “consciência social” e levam a sério suas responsabilidades de oferecer empregos, eliminar a discriminação, evitar a poluição e quaisquer outras frases prontas da safra de reformistas contemporâneos. De fato, eles estão – ou estariam, se eles ou qualquer outra pessoa os levassem a sério – pregando o mais puro e autêntico socialismo. Empresários que falam dessa forma são marionetes involuntárias das forças intelectuais que, nas últimas décadas, vêm minando a base de uma sociedade livre." (Friedman, 1970, destaque meu)



Estariam os duzentos CEO´s se transformando em agentes socialistas? Ou finalmente será possível criticar nosso modo de vida e sugerir alternativas sem ser taxado de antidemocrático?


Nas últimas décadas, a concentração de renda só tem aumentado. Nos Estados Unidos, os 400 habitantes mais ricos triplicaram sua parte da riqueza desde os anos 80, e hoje essas 400 pessoas detêm mais riqueza do que os 150 milhões de estadunidenses que representam os 60% mais pobres do país. Estes, por sua vez, viram sua participação na riqueza cair de 5,7% nos anos 80 para 2,1% em 2014, segundo reportagem do Washington Post.


A Forbes, conhecida por apresentar sua lista dos bilionários, publicou, em março deste ano, uma reportagem intitulada “Reimaginando o Capitalismo: Como o melhor sistema já concebido (e seus bilionários) precisa mudar”. Nessa extensa reportagem, um dos pontos que se destacam é a fala de Paul Tudor Jones, membro fundo de investimento Revolution. Ele comenta que é necessário percebermos que nos encontramos em uma encruzilhada cheia de fissuras sociais.


Jones defende a necessidade de ser proativo e, em suas palavras, “encontrar soluções baseadas no mercado” para evitar medidas populistas de um possível governo extremista que pode taxar as grandes fortunas de maneira definitiva.

Além da concentração de renda e seus reflexos devastadores, enfrentamos o desafio das mudanças climáticas que potencializa o abismo econômico entre as classes sociais.


A CNBC mostra como as comunidades de menor poder econômico tem menor resiliência a eventos extremos do clima, pois comumente se encontram em áreas mais expostas e com menor infraestrutura e não tem reservas para reconstrução que tais eventos exigem.


A revista Time, por sua vez, mostra como os pobres estão se tornando mais pobres, e os reflexos dessa tendência.



Não à toa o respeitadíssimo jornal Financial Times se reposicionou neste último mês (leia a carta do editor aqui). O jornal destaca a necessidade de os negócios entregarem lucros com propósito, segundo o texto, “as empresas irão compreender que essa combinação serve o seu próprio interesse assim como o de seus clientes e funcionários.”

Em sua página principal, o site do veículo destaca, em uma faixa amarela com link específico, a frase “MAKE SENSE OF A DISRUPTED WORLD[2]”. Logo na página de destino o leitor se depara com um banner em loop: “Essa é a nova agenda”, “Capitalismo. Tempo para um RESET.” Agora, quando voltamos ao artigo de Friedman, ele declara:


[...] existe uma, e apenas uma, responsabilidade social das empresas – a de usar recursos e se dedicar a atividades destinadas a aumentar seus lucros, contanto que permaneça dentro das regras do jogo, o que significa dizer, participar de uma competição livre e aberta, sem enganação ou fraude. (Friedman, 1970)



Hoje, após transcorridas quase cinco décadas desde a publicação de seu artigo, o que nos separa do pensamento de Friedman é apenas a forma de enxergar o mundo. O livre mercado em sua plenitude não correspondeu aos anseios da sociedade e está nos levando para a destruição de todo nosso ecossistema. Estamos vivendo um momento de recomeço, “reset” que nos convida e nos obriga a repensar a forma como vivemos.


Até aqui tivemos - enquanto civilização ocidental - um modelo de entendimento de mundo predominantemente mecanicista, baseado em polaridades. Apresentamos o bem e o mal, o caos e a ordem, o capitalismo e o socialismo, a vida profissional e a vida pessoal, o trabalho e o estudo, o isento e o politizado.


Ainda que tais barreiras já tenham sido superadas há algum tempo, no campo teórico-filosófico nossas práticas pessoais e organizacionais ainda persistem nesse “brete”. Por isso esses posicionamentos são relevantes, e é necessário assumir as contradições para que possamos enfrentá-las e construir soluções viáveis a partir delas.


Não obstante, talvez seja hora de desconstruir algumas idealizações a fim de iniciar uma jornada de construção autoral, situada, co-criada, mais humanizada e inclusiva. Ou evoluímos enquanto sociedade, em nossas organizações e como indivíduos ou, como alerta Paul Tudor Jones e Frederic Laloux, iremos regredir algumas casas em nosso processo evolutivo.


Repensar o propósito de nossas organizações com a intenção de que elas façam o bem, sejam conscientes e humanizadas e regenerem o meio ambiente[3], requer uma capacidade de agir sobre uma série de questões. Por exemplo:


a) como nos organizamos para execução do trabalho?

b) qual a importância da autonomia e da realização pessoal dos colaboradores nessas organizações?

c) como respeitar as visões distintas de mundo e ser capaz de construir em colaboração?

d) qual o modelo de autoridade e poder a ser utilizado na organização?


Quanto as lideranças de nossas organizações estão dispostas e preparadas para a construção desse caminho?


Lembre-se essa é uma jornada a ser construída, e ela já começou!


Rogério Gonzales

Consultor Associado La Rede - Laboratório de Redefinição

Doutorando em Administração de Empresas - UFRGS

@la.rede #culturalchange


[1] A RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS É AUMENTAR OS SEUS LUCROS, tradução livre. Versão do artigo em português.

[2] Compreenda o mundo em disrupção, tradução livre.

[3] Essas características são expressas por alguns movimentos organizacionais: Empresas B, Capitalismo Consciente, Empresas Humanizadas, Empresas Regenerativas, entre outros.

 

Porto Alegre - RS, Brasil

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